Entrevista



Como surgiu o seu interesse por cavalos?

Meus pais mexiam em olaria fazendo tijolos e eu ficava perto do que chama "massador", onde a pessoa fica rodando para amassar o barro. Eu era muito pequeno e meu pai me colocava em cima de um cavalinho manso e eu ficava rodando. Naquela época eu já falava com ele que um dia eu teria um cavalo. Por volta dos anos 60 eu vim para esta região (onde hoje é a sociedade hípica de MG). Eu vinha brincar por aqui em uma fazenda e um dia indo para casa encontrei com uma turma de uns 7 homens de terno. Como naquela época se falava muito de disco voador, os meninos correram e só eu fiquei. Parece que foi Deus que me fez ficar, era destino. Sr. Braga veio me perguntar se eu conhecia bem o lugar e se gostava de cavalos pois eles iriam começar uma hípica e colocar lá cavalos para os filhos montarem. Ele trouxe alguns piquiras e eu comecei a tomar conta dos animais. Contei para minha avó que tinha conseguido um emprego para mexer com cavalos. Fiquei cuidando dos cavalos e as vezes montava um pouco, caia e não me importava. Comecei então a aprender a montar com um Coronel que percebeu que eu gostava muito de cavalos. Foi ele quem me chamou de Pelé pela primeira vez, dizendo que eu era parecido com ele e o nome pegou. Tinha na época um tal de Valdolírio e eu pedi para ele me ensinar e com o tempo ele veio sim a me ensinar. Ele era muito bom de cavalo e eu comecei a montar vários cavalos para ele sem ganhar nada. Ele me dizia que naquele momento não estava ganhando nada, nem comida, mas no futuro eu ganharia. Eu aprendi e com isso estou na hípica há 53 anos.

Quando surgiu a hípica de contagem? Quando começou a trabalhar no hipismo?

Nos anos 60. Ela foi inaugurada em 1962. Na época, menor podia trabalhar de carteira assinada e eu tive a minha assinada aos 12 anos como funcionário da hípica. Eu trabalhava para hípica meio horário e para mim mesmo o restante do dia. Comecei fazendo exterior com famílias, em 1963 comecei a dar aula fazendo passeios com Dr. Ruy de Castro e fiquei com ele por 10 anos. Em 1968 fui pela primeira vez a um campeonato brasileiro com o Zé Neto. Já fui levando aluno. Em 1976 levei um aluno para o campeonato Sul Americano no Chile, Roque Soares, o Roquinho, e lá, mesmo sendo um professor muito novo, ganhei um curso ficando por 3 meses no país. Quando voltei tive propostas para ir para vários lugares, inclusive para o exterior mas como tinha meu filho, não queria sair daqui. Ainda em 1976, tive proposta para ir para São Paulo, aceitei e fui trabalhar com Coronel Renildo, Coronel Carnaúba e Ávila. Uma vez quando estava aqui em BH, fui ao centro hípico da Pampulha e o Dr. Marcos me convidou para dar aula para as filhas dele e cobriu a proposta do que eu ganhava em São Paulo. Comecei a dar aula para as duas filhas, que na época só tinham cinco animais e viajam muito pelo Brasil. Mas com o tempo, eu comecei achar muito monótono dar aula só para as duas.

Conversando com ele, ele mesmo teve a ideia de começar a escola lá. No local onde hoje é a secretaria do Cepel ele construiu uma casa para eu morar e ficar mais perto dos cavalos facilitando meu trabalho. Com tempo ele foi construindo banheiros, 5 cocheiras, com mais tempo ele fez mais cinco.

Quando chegava de viagem, muitas vezes ele dormia lá mesmo e minha esposa preparava a comida. A escola começou a crescer e começamos a mapear o Cepel. Ele foi comprando lotes, fez um redondel e com os anos a escola cresceu e foi virando o que é hoje. Dr. Marcos construiu tudo aquilo com dinheiro dele de pouco em pouco. Até a areia de lá nós comprávamos fazendo troca por caminhão de esterco. Os sacos de ração vazios eram vendidos. Ele fez tudo com muita luta. Nesta época já montavam lá o Bernardo, Pinduca, Ricardo Moura, essa turma começou a montar lá em baixo antes do Cepel começar. Eu fiquei no Cepel 12 anos. Convivi e fiz algo por toda esta turma que está ai hoje como Marquinhos, Marins e Fabricio. Na minha época do Cepel eu dava aulas teóricas, fazia desfiles antes das provas, queria que os meninos estivessem tranquilos e saber que eles estavam preparados para o que tinham que fazer dentro da pista.


Quando você saiu do Cepel e voltou para SHMG?

Fui a um campeonato em Brasília levando as filhas do Dr. Marcos que foram campeãs no brasileiro de Amazonas, cada uma em sua categoria. Neste campeonato, sugeri a ele convidar o Marquinhos, o Vitor e o Luizinho (irmão do Vitor) que tinha visto montar em Brasília, para virem para BH. Eles montavam no Haras Pioneiro e fui até lá a pedido do Dr. Marcos para conversar com eles. Eles interessaram pela proposta e vieram para BH. Dr. Marcos construiu um alojamento. O Cepel foi crescendo muito.

A primeira prova lá nós usamos bambu, que pegamos no zoológico, e tambores para fazer os obstáculos. Eu tinha que fazer a ordem de entrada, destender os alunos e ficar no júri , tudo ao mesmo tempo e a escola já tinha quase que 60 alunos. Eu passei por uma época que não tinha recursos que tem hoje e mesmo sozinho o Cepel chegou a ter 160 alunos na escola.

Em 1987 eu sai de lá. O Vitor assumiu a coordenação do Cepel, já como genro do Dr. Marcos e eu achei melhor sair de lá e voltei para Hípica.

O que é importante para você na hora de escolher um cavalo para um aluno?

Procuro ser honesto e escolher cavalo certo para pessoa sem pensar no valor que vou ganhar. Não quero ver o cavalo disparando com meu aluno na pista. Quero dormir tranquilo. Não preciso nem quero ter uma nota 10 sempre, porque no dia que não conseguir um 10, vão achar que eu regredi. Quero estar sempre na média.

 


Qual momento mais gratificante desses 53 anos?

O dia que recebi das mãos do Governador Anastasia, que foi meu aluno em 1977, uma homenagem de condecoração no cinquentenário da Hípica de Contagem. É o lugar onde me criei.

 

Quem foi seu primeiro aluno, você se lembra?

Um senhor de idade. Dr. Rui de Castro Magalhães e Dona Glória. Dei aula para muita gente. Fabrício começou comigo aos 5 anos. Dei aula para João Pedro Lambertucci, Mariana, Vitória Rabelo, Murilo, Marins, Fabrício e muito mais gente.

 

Qual cavalo mais te marcou?

O natural. Um cavalo que foi condenado pela veterinária mas eu consegui convencer o Dr. Marcos a comprá-lo para ajudar a fazer o nome do Cepel porque era um cavalo muito bom. Vítor foi com ele em um campeonato na Alemanha.

 

Até quando você vai dar aula?

Até quando eu der conta.